Introdução
A logística está presente sempre que uma organização precisa garantir que recursos, materiais, produtos ou informações estejam disponíveis no local adequado, na quantidade necessária e no momento oportuno. Por isso, sua atuação não se limita ao transporte de mercadorias ou ao funcionamento de depósitos. A logística envolve o planejamento, a organização e a coordenação de diferentes atividades relacionadas ao fluxo de materiais, produtos, serviços e informações ao longo das operações de uma organização.
Essas atividades estão diretamente relacionadas a processos como compras, recebimento, armazenagem, movimentação de materiais, controle de estoques, distribuição, transporte e atendimento aos clientes. Por estarem conectadas, as decisões tomadas em uma dessas atividades podem produzir efeitos sobre várias outras áreas da organização, como produção, finanças, marketing, sistemas de informação e vendas.
Em uma indústria, por exemplo, uma compra realizada no momento inadequado pode provocar excesso de estoque ou falta de matéria-prima. A falta de materiais pode interromper a produção, enquanto o excesso ocupa espaço, imobiliza recursos financeiros e aumenta os custos de armazenagem. Depois que o produto é fabricado, outras decisões precisam ser tomadas, como onde armazená-lo, de que forma processar os pedidos, qual meio de transporte utilizar e como garantir que a entrega seja realizada conforme o previsto.
Esse mesmo princípio pode ser observado em organizações comerciais e de serviços. Uma escola depende do abastecimento de alimentos, materiais de limpeza, itens de expediente e outros recursos necessários ao funcionamento de suas atividades. Um hospital necessita de medicamentos, materiais hospitalares, equipamentos, alimentação e serviços de apoio. Uma loja precisa manter disponíveis os produtos procurados pelos consumidores. Em todos esses casos, falhas no fluxo de materiais, informações ou serviços podem comprometer o funcionamento da organização e a qualidade do atendimento prestado.
Compreender a logística significa, portanto, entender como as organizações planejam e administram seus fluxos, coordenam recursos, controlam custos e buscam atender às necessidades de seus clientes e usuários. Ao integrar fornecedores, processos internos e pontos de atendimento ou entrega, a logística contribui para que as operações ocorram de maneira organizada, eficiente e alinhada aos objetivos da organização.
A logística como sistema organizacional
Rosa (2015) apresenta a logística como uma atividade que envolve colocar aquilo de que o cliente ou a organização necessita nas condições adequadas de quantidade, lugar, prazo, qualidade, documentação e custo. Essa definição evidencia uma característica essencial: o desempenho logístico não depende de uma única tarefa. Ele resulta da coordenação de várias decisões que precisam funcionar de modo conjunto.
Isso explica por que identificar logística apenas com transporte produz uma visão incompleta. O transporte é indispensável porque desloca materiais entre pontos geográficos, mas antes de transportar é necessário saber o que deve ser movimentado, em que quantidade, de onde sairá, para onde irá e quando deverá chegar. Também é necessário verificar disponibilidade de estoque, preparar documentos, separar produtos e transmitir informações. Da mesma forma, armazenar é uma atividade logística, mas não constitui isoladamente toda a logística.
Na organização proposta por Rosa (2015), três atividades possuem posição central: Gestão do Processamento do Pedido, Gestão de Transporte e Gestão de Estoque. Elas se relacionam com atividades complementares como compras, armazenagem, manuseio de materiais, embalagem de proteção, transporte operacional e manutenção da informação. A importância dessa classificação está menos em separar departamentos e mais em demonstrar que o resultado logístico depende da articulação entre funções.
Essa relação entre serviço e custo impede que cada área seja administrada isoladamente. Manter grande quantidade de estoque pode elevar a disponibilidade imediata, porém aumenta o capital imobilizado, a necessidade de espaço e o risco de perdas. Reduzir o estoque ao mínimo diminui parte desses custos, mas pode elevar o risco de falta de materiais ou produtos. Aumentar o número de armazéns pode aproximar o estoque dos clientes e reduzir determinados percursos de distribuição, mas também tende a ampliar custos de instalações e a quantidade total estocada.
O princípio relevante é o do custo logístico global. A decisão adequada não é necessariamente aquela que minimiza individualmente o transporte, o estoque ou o processamento de pedidos. O objetivo é buscar uma configuração na qual o conjunto das atividades atenda ao nível de serviço necessário com um custo global compatível.
Essa perspectiva é sistêmica. Uma alteração em uma atividade modifica condições enfrentadas pelas demais. Se compras seleciona um fornecedor com prazo de reposição maior, estoque pode precisar manter uma reserva adicional. Se marketing promete entregas mais rápidas, transporte, armazenagem e processamento de pedidos precisam possuir capacidade para sustentar essa promessa. Se finanças reduz recursos destinados a estoques, a operação precisa avaliar como evitar interrupções. A logística funciona, portanto, como uma área de articulação entre decisões que afetam o fluxo da organização.
Fluxos de entrada, interno e de saída
Uma maneira didática de compreender o funcionamento logístico é acompanhar o deslocamento dos recursos desde os fornecedores até os clientes. Nesse percurso podem ser identificados três grandes movimentos: fluxo de entrada, fluxo interno e fluxo de saída. Eles não representam áreas totalmente independentes, mas momentos interligados de um mesmo processo.
Fluxo de entrada
O fluxo de entrada reúne as atividades que permitem trazer para dentro da organização os materiais, produtos e serviços necessários ao seu funcionamento. Envolve identificar a necessidade, selecionar fornecedores, comprar, transportar, receber, conferir, registrar e disponibilizar os itens para uso ou armazenagem.
Rosa (2015) trata esse conjunto no âmbito da Administração de Materiais, cuja finalidade é abastecer a organização no tempo, quantidade e qualidade requeridos, procurando fazê-lo de maneira economicamente adequada. O fluxo de entrada, portanto, não termina no ato de comprar. Uma compra somente cumpre sua função logística quando o item necessário é efetivamente recebido em condições de atender à operação.
Fluxo interno
Depois do recebimento, os recursos passam a circular dentro da própria organização. Esse movimento constitui o fluxo interno. Dependendo da atividade da organização, pode envolver deslocamento do recebimento para o almoxarifado, transferência entre posições de estoque, abastecimento da produção, movimentação entre setores, separação, consolidação de pedidos e encaminhamento para expedição.
O fluxo interno é frequentemente menos visível para o cliente, mas exerce forte influência sobre o tempo e o custo do serviço. Um armazém mal organizado pode exigir deslocamentos excessivos, aumentar o tempo para localizar materiais, dificultar inventários e elevar a ocorrência de avarias. Um layout adequado procura reduzir movimentos desnecessários e aproximar materiais das áreas em que são utilizados com maior frequência.
Fluxo de saída
O fluxo de saída conduz o produto acabado, o material separado ou o recurso solicitado até o destinatário. Ele inclui a preparação do pedido, a retirada dos itens do estoque, sua conferência, embalagem quando necessária, emissão da documentação, carregamento, transporte e entrega.
No tratamento de Rosa (2015), a Distribuição Física compreende as atividades que se desenvolvem desde a saída do produto acabado até sua entrega ao cliente. Processamento de pedidos, transporte, estoque de produtos acabados e armazenagem fazem parte desse conjunto.
Aquisição, recebimento e suprimento de materiais
O abastecimento começa pela identificação de uma necessidade. Uma organização compra porque determinado setor precisa de matéria-prima, mercadoria, componente, material de consumo, equipamento ou serviço para continuar funcionando. O papel da área de compras é transformar essa necessidade em uma aquisição realizada nas condições adequadas.
Conforme Rosa (2015), a atividade de compras envolve escolher fornecedores aptos, negociar preços e condições, estabelecer contratos, emitir ordens de compra, conduzir os procedimentos de recebimento e encaminhar o processo para pagamento. Seu objetivo não consiste simplesmente em encontrar o menor preço. Uma compra inadequada pode gerar problemas muito superiores à economia inicial obtida.
O fornecedor precisa ser capaz de atender requisitos de qualidade, quantidade, prazo e regularidade. Um fornecedor de preço baixo, mas incapaz de cumprir os prazos necessários, pode obrigar a empresa a manter estoques maiores para se proteger contra atrasos. A confiabilidade do fornecimento, portanto, interfere diretamente nas decisões de estoque e no risco de interrupção das operações.
Da necessidade até o recebimento
- Identificação da necessidade: o setor solicitante informa o que necessita, em qual quantidade e para quando.
- Especificação: o item ou serviço é descrito de forma suficientemente precisa para orientar a aquisição.
- Seleção e negociação com fornecedores: são avaliadas capacidade de atendimento, qualidade, prazo, condições comerciais e demais requisitos.
- Formalização da compra: são definidos pedido, contrato ou documento equivalente, com condições de fornecimento.
- Transporte e entrega: o material é encaminhado ao local estabelecido.
- Recebimento e conferência: verifica-se a compatibilidade entre aquilo que foi comprado, documentado e efetivamente entregue.
- Registro e destinação: o material aceito é registrado e encaminhado para estoque, consumo direto ou setor solicitante.
O recebimento merece atenção porque é o ponto em que a organização assume fisicamente os itens entregues. A conferência deve verificar, conforme a natureza do material, a documentação, a quantidade, a identificação do item, a condição física e demais requisitos de aceitação. Divergências precisam ser identificadas antes que os materiais sejam incorporados ao estoque ou utilizados.
A armazenagem descrita por Rosa (2015) trabalha com dois fluxos operacionais básicos: recebimento e expedição. No recebimento, produtos entram no armazém; na expedição, são liberados para saída. Em ambos os casos, o controle documental, a conferência e a atualização dos estoques são indispensáveis. Isso mostra que o recebimento não é apenas uma tarefa física de descarregamento. É também um processo administrativo e informacional.
O setor de compras mantém relação intensa com outras áreas. Produção informa necessidades de matéria-prima e manutenção; estoque comunica níveis disponíveis e necessidade de reposição; finanças informa limites e condições de pagamento; logística acompanha prazos e condições de transporte; o setor solicitante define especificações. Uma aquisição eficaz depende da qualidade dessas informações.
Estoques, armazenagem e movimentação interna
O estoque existe porque a disponibilidade e o consumo de materiais nem sempre acontecem exatamente no mesmo momento. Comprar somente no instante em que o item será utilizado pode ser inviável quando fornecedores necessitam de prazo para entregar, quando há variações de demanda ou quando a operação não pode correr o risco de ficar sem determinado material.
Ao mesmo tempo, estoque não é um recurso sem custo. Produtos armazenados ocupam espaço, exigem controle, equipamentos, instalações e mão de obra. Também representam recursos financeiros aplicados em itens que ainda não foram consumidos ou vendidos. Dependendo do material, podem existir riscos de deterioração, vencimento, obsolescência, avaria, furto ou perda.
Por isso, a gestão de estoques procura equilibrar duas situações indesejáveis: o excesso e a falta. Estoque excessivo eleva custos e recursos imobilizados; estoque insuficiente pode provocar perda de vendas, atraso no atendimento ou paralisação de atividades.
Quando repor o estoque
Um dos conceitos apresentados por Rosa (2015) para o controle é o ponto de reposição. A lógica consiste em iniciar o processo de reabastecimento antes que o estoque seja totalmente consumido, considerando a velocidade de consumo e o tempo necessário para receber uma nova entrega.
O tempo de ressuprimento, também denominado lead time de reposição, corresponde ao intervalo necessário para que uma nova quantidade esteja disponível após o início do processo de reposição. Quanto maior ou mais incerto esse prazo, maior pode ser a necessidade de proteção contra faltas.
O estoque de segurança é uma quantidade mantida como proteção contra incertezas, como variação de consumo ou atraso de fornecedor. Isso não significa que quanto maior o estoque de segurança, melhor será a gestão. Seu dimensionamento precisa estar relacionado ao risco que a organização aceita, ao nível de serviço esperado e aos custos envolvidos.
Armazenagem
Armazenar significa mais do que colocar materiais em um espaço disponível. A função do armazém é manter os itens sob condições adequadas e permitir que sejam localizados, movimentados, controlados e retirados quando necessários. O projeto de armazenagem considera características do produto, tempo de permanência, volume, frequência de movimentação, equipamentos, segurança e fluxo das operações.
Rosa (2015) destaca, entre as funções do armazém, o abrigo dos produtos e a montagem de pedidos. O abrigo preserva os materiais enquanto aguardam utilização ou expedição. Já a montagem de pedidos exige localizar e separar itens específicos que, reunidos, formarão a quantidade solicitada por um cliente ou setor interno.
Entre as operações internas, o picking corresponde à coleta e separação dos diferentes itens que compõem um pedido. O fracionamento divide um lote recebido em quantidades menores. Carga e descarga fazem a interface entre o armazém e os veículos de transporte. Essas operações demonstram como a armazenagem conecta os fluxos de entrada e saída.
Inventário e confiabilidade do estoque
O sistema de controle pode indicar que determinado produto está disponível, mas a quantidade física existente pode ser diferente. Essa divergência compromete compras, produção, atendimento e planejamento. Por isso, o inventário é uma função essencial da administração de estoques.
Rosa (2015) apresenta o inventário como instrumento de verificação das quantidades existentes e de conciliação entre estoque físico e registros da organização. A acuracidade expressa a confiabilidade dessa informação, enquanto a divergência representa o desvio encontrado entre aquilo que está fisicamente disponível e aquilo que o sistema registra.
Pedidos, transporte e distribuição
O pedido transforma a necessidade do cliente em uma informação operacional para a organização. A partir dele é necessário confirmar o que foi solicitado, verificar condições de atendimento, identificar estoque, preparar documentos, separar materiais, programar expedição e acompanhar a entrega.
Rosa (2015) destaca que o processamento do pedido possui custo relativamente menor que transporte e estoque, mas exerce grande influência sobre a imagem da organização e sobre o tempo total de atendimento. Um erro de endereço, quantidade ou faturamento pode provocar retrabalho, devolução e atraso, mesmo que todas as demais etapas sejam executadas corretamente.
O processamento pode ser compreendido pelas etapas de emissão, transmissão, verificação e processamento. Em sistemas informatizados, várias dessas fases podem ocorrer de forma integrada: o pedido entra no sistema, é validado, gera informações para os setores responsáveis e passa a ser acompanhado ao longo do ciclo.
Tempo do ciclo do pedido
O ciclo do pedido abrange o conjunto de atividades realizadas desde a colocação da solicitação até a entrega nas condições estabelecidas. Seu tempo, frequentemente chamado de lead time do pedido, constitui um indicador importante porque sintetiza o desempenho de várias funções logísticas.
Um pedido pode ser registrado rapidamente e ainda assim chegar atrasado se houver demora para separar o material, indisponibilidade de estoque ou falha de transporte. Por essa razão, medir apenas o tempo de uma etapa isolada não permite compreender o desempenho completo percebido pelo cliente.
Transporte
O transporte agrega valor de lugar porque permite deslocar materiais entre fornecedores, instalações, armazéns e clientes. Sua gestão envolve decisões sobre modalidade de transporte, veículos, capacidade, rotas, programação de saídas e combinação de diferentes meios quando necessário.
Os principais modais tradicionalmente considerados na logística incluem rodoviário, ferroviário, aquaviário, aéreo e dutoviário. Não existe um modal universalmente melhor. A escolha depende das características da carga, distância, prazo, volume, infraestrutura disponível, custo, segurança e confiabilidade necessária.
Uma carga de grande volume e baixo valor unitário pode justificar uma solução diferente daquela utilizada para um material de alto valor e necessidade urgente. Da mesma forma, a disponibilidade efetiva de infraestrutura limita as alternativas. A decisão de transporte deve ser compatível com o nível de serviço e com o restante da rede logística.
Distribuição
A distribuição física organiza o deslocamento dos produtos desde a etapa final das operações até os destinatários. Ela pode ocorrer diretamente entre organização e cliente ou envolver intermediários e instalações de distribuição.
Rosa (2015) diferencia, entre outras configurações, a distribuição um para um, em que a carga segue para um único destino, e a distribuição um para muitos, em que um veículo atende vários pontos ao longo de um roteiro. A escolha influencia ocupação do veículo, quantidade de paradas, tempo, roteirização e custo.
Na distribuição compartilhada, o planejamento da sequência de entregas torna-se particularmente importante. A carga precisa ser organizada de maneira coerente com a ordem dos destinos, e o roteiro deve procurar combinar atendimento aos clientes, capacidade do veículo, distâncias e horários.
Cardoso (2016) amplia essa análise ao tratar dos serviços de valor agregado. Atividades logísticas podem ir além do simples transporte ou armazenamento e incluir separação, sequenciamento, atendimento de pedidos, gerenciamento de estoque e outras operações adaptadas às necessidades do cliente. A logística, desse modo, participa diretamente da construção do serviço percebido.
Informação logística e integração das áreas
O fluxo físico somente pode ser coordenado se a organização souber o que precisa ser movimentado. Essa condição torna a informação um recurso central da logística. Dados sobre pedidos, estoques, fornecedores, prazos, transportes, endereços, recebimentos, expedições e ocorrências precisam chegar às pessoas responsáveis no momento em que serão utilizados.
Rosa (2015) caracteriza a manutenção da informação como função vital para a logística. A tecnologia amplia sua capacidade, mas informação logística não deve ser confundida com o computador em si. Sistemas são instrumentos para registrar, tratar, compartilhar e recuperar dados de modo que possam orientar decisões.
Entre as tecnologias mencionadas no material estão bancos de dados, redes de computadores, internet, intercâmbio eletrônico de dados, códigos de barras, etiquetas inteligentes e digitalização de imagens. A contribuição dessas tecnologias está na redução do tempo de processamento, no aumento da confiabilidade, na disponibilidade das informações e na melhoria da eficiência operacional.
Em um fluxo bem coordenado, a entrada de um pedido pode gerar automaticamente a consulta ao estoque. Havendo disponibilidade, inicia-se a separação. Se o item não estiver disponível, a informação pode gerar necessidade de produção ou reposição. Depois da expedição, dados de rastreamento permitem acompanhar o transporte e informar ao cliente a situação de sua entrega. Quando o recebimento é confirmado, os registros correspondentes são atualizados.
Relação com a Administração
A logística aplica diretamente funções administrativas de planejamento, organização e controle. Planejar significa definir como os recursos serão movimentados e disponibilizados. Organizar implica distribuir responsabilidades, instalações, procedimentos e recursos. Controlar envolve comparar resultados com o planejado, acompanhar indicadores e corrigir desvios.
O planejamento logístico apresentado por Rosa (2015) abrange localização, estoques e transporte e pode ocorrer em níveis estratégicos, táticos e operacionais. Decisões sobre localização de armazéns, por exemplo, possuem efeitos de longo prazo; já a programação de uma rota específica pertence ao cotidiano operacional. Apesar das diferenças de horizonte, as decisões precisam permanecer coerentes.
Relação com a Produção e as Operações
Produção depende do abastecimento de materiais e componentes na quantidade e no momento em que serão utilizados. Quando o suprimento falha, equipamentos e trabalhadores podem permanecer ociosos mesmo que toda a capacidade produtiva esteja disponível. Quando chegam materiais demais, a produção transfere parte do problema para os estoques.
A ligação também ocorre no sentido inverso. A programação da produção informa à logística quanto será necessário abastecer e quando produtos estarão disponíveis para distribuição. Assim, compras, estoque, armazenagem e transporte precisam estar sincronizados com a operação principal.
Cardoso (2016) evidencia que essa lógica também se aplica aos serviços. Mesmo quando o resultado final é intangível, a prestação pode depender de materiais, equipamentos, instalações e sistemas. A falta de um item aparentemente simples pode comprometer a capacidade de atendimento.
Relação com Finanças
A logística utiliza recursos financeiros de maneira significativa. Estoques representam capital aplicado em materiais; armazéns exigem instalações e equipamentos; transportes envolvem frota própria ou contratação de terceiros; compras criam compromissos de pagamento.
Por essa razão, decisões logísticas precisam considerar não apenas custos operacionais imediatos, mas também investimento e utilização do capital. Uma proposta para aumentar estoques pode melhorar a disponibilidade, mas finanças precisa avaliar o efeito desse aumento sobre o caixa e sobre os recursos imobilizados. Uma decisão de terceirizar transporte pode reduzir investimento em frota, mas elevar custos variáveis. O equilíbrio depende da estratégia e das condições da organização.
Relação com Marketing e mercado
A logística participa daquilo que o cliente efetivamente recebe. Marketing pode identificar necessidades, definir mercados e comunicar uma proposta de valor, mas prazos, disponibilidade e condições de entrega dependem da capacidade operacional de cumprir essa proposta.
O próprio processamento do pedido possui interface com marketing porque frequentemente constitui um dos primeiros contatos operacionais do cliente com a organização. Rosa (2015) observa que essa etapa influencia a imagem organizacional. Um processo claro e confiável reforça a percepção de profissionalismo; informações incorretas, falta de retorno e atrasos produzem o efeito contrário.
Cardoso (2016) trata a percepção de valor em serviços como resultado de um conjunto que ultrapassa o produto básico. Prazo, segurança, facilidade, disponibilidade e atendimento podem compor o valor percebido. A logística participa diretamente de várias dessas dimensões.
Relação com o atendimento ao cliente
O atendimento é o ponto em que muitas informações logísticas são transformadas em comunicação com o cliente. Para informar uma previsão de entrega, por exemplo, a equipe precisa ter acesso a dados confiáveis sobre disponibilidade, separação, expedição e transporte.
Rosa (2015) destaca o uso de canais como Serviço de Atendimento ao Cliente e sistemas digitais para informar a posição do pedido no ciclo e a previsão de entrega. Isso demonstra que atendimento não pode funcionar isoladamente da operação. Sem integração com a informação logística, o atendente apenas reproduz estimativas pouco confiáveis.
Cardoso (2016) diferencia atividades de linha de frente (front office), em contato direto com o cliente, e atividades de retaguarda (back office), que sustentam o serviço sem aparecer necessariamente para quem o utiliza. A logística participa intensamente dessa retaguarda, embora seus resultados se tornem perceptíveis na linha de frente por meio da disponibilidade, do prazo e da confiabilidade do atendimento.
| Área | Informações ou recursos fornecidos à logística | Impactos recebidos da logística |
|---|---|---|
| Administração | Diretrizes, planejamento, políticas, responsabilidades e critérios de controle. | Indicadores de prazo, custo, estoque, disponibilidade e desempenho dos fluxos. |
| Produção / operações | Programação, necessidade de materiais, capacidade e previsão de conclusão. | Disponibilidade de insumos, abastecimento, movimentação interna e retirada de produtos acabados. |
| Finanças | Orçamento, disponibilidade de recursos, políticas de pagamento e limites de investimento. | Custos de transporte e armazenagem, capital em estoque e compromissos de compra. |
| Marketing | Demanda, características do mercado, prioridades de clientes e nível de serviço proposto. | Disponibilidade, prazo real de entrega, cobertura de distribuição e capacidade de atendimento. |
| Atendimento | Solicitações, reclamações, alterações e informações recebidas dos clientes. | Situação dos pedidos, previsão de entrega, disponibilidade e ocorrências no transporte. |
A tabela evidencia que a logística não é uma função isolada no organograma. Ela depende de informações produzidas por outras áreas e, simultaneamente, fornece condições para que essas áreas cumpram suas próprias responsabilidades. A integração é, portanto, uma exigência do funcionamento logístico.
A ementa do curso utiliza a expressão logística integrada para caracterizar essa visão de articulação. Rosa (2015) observa que a própria noção de logística já pressupõe integração. Didaticamente, a expressão pode ser compreendida como ênfase na necessidade de abandonar a gestão fragmentada de compras, estoques, transporte, informação e distribuição e passar a tratá-los como componentes de um mesmo sistema voltado ao atendimento.
Síntese
A logística exerce o papel de coordenar os recursos necessários para que a organização mantenha suas operações e consiga atender clientes ou usuários nas condições esperadas. Seu funcionamento envolve muito mais do que transporte: processamento de pedidos, gestão de estoques, compras, recebimento, armazenagem, movimentação, distribuição e informação formam um conjunto de atividades interdependentes.
O fluxo de entrada conecta fornecedores à organização por meio do suprimento e da administração de materiais. O fluxo interno organiza a guarda, o controle e a movimentação dos recursos entre as diferentes etapas da operação. O fluxo de saída conduz produtos, materiais ou pedidos até seus destinatários. Embora esses movimentos possam ser estudados separadamente, o resultado logístico depende de sua integração.
Compras precisa considerar qualidade, quantidade, prazo, custo e confiabilidade dos fornecedores. O recebimento confirma se aquilo que foi contratado corresponde ao que efetivamente chegou. Estoques protegem a operação contra diferenças de tempo entre fornecimento e consumo, mas precisam ser equilibrados para evitar tanto excesso quanto falta. A armazenagem preserva os materiais e organiza as condições para sua localização, separação, movimentação e expedição.
O processamento do pedido converte a demanda em instruções para a operação. O transporte realiza os deslocamentos necessários e a distribuição organiza a chegada dos produtos aos clientes. Em todas essas etapas, a informação conecta decisões e permite que a organização saiba o que existe, o que foi solicitado, onde o material se encontra, quando deverá chegar e quais desvios precisam ser corrigidos.
Por fim, o desempenho logístico depende da integração com administração, produção, finanças, marketing e atendimento. Produção necessita de abastecimento; finanças acompanha recursos e custos; marketing define mercados e expectativas de serviço; atendimento depende de informações confiáveis; e a administração coordena planejamento e controle. A logística conecta essas dimensões ao administrar os fluxos que transformam decisões organizacionais em disponibilidade concreta de recursos, produtos e serviços.
Referências
BAHIA. Secretaria da Educação. Superintendência da Educação Profissional e Tecnológica — SUPROT. Ementa — Técnico em Administração — PROEJA. Salvador: Secretaria da Educação do Estado da Bahia. Documento curricular fornecido como material de referência.
CARDOSO, Patrícia Alcântara. Gestão de operações e logística II. 3. ed. rev. atual. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração/UFSC; Brasília: CAPES: UAB, 2016. 146 p. ISBN 978-85-7988-288-3.
ROSA, Rodrigo de Alvarenga. Gestão de operações e logística I. 3. ed. rev. atual. Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração/UFSC; Brasília: CAPES: UAB, 2015. 158 p. ISBN 978-85-7988-264-7.